BALA PERDIDA
Eduardo Passos (05/11/2009)
Tenho quinze anos, me chamo Clayton Alterosa Bergamo e moro numa favela do Rio de Janeiro. Estudo numa escola publica estadual, e estou no ensino médio. Tenho muitos planos para minha vida. Apesar de morar numa favela, não costumo sofrer discriminação por parte de colegas de escola, porque eles sabem que não procuro coisas ruins para minha vida. Tenho amigos, ou melhor, conhecidos, que são viciados em drogas, outros viraram bandidos, mas a vida é deles, não me meto nisso, apenas quando converso com algum deles, sempre alerto para o que pode vir a acontecer com ele, mas, pelo visto, não me levam à sério. Nenhum até agora, saiu do vício ou da bandidagem por influência minha, mas é assim, cada um sabe onde se mete. Eles sempre falam que sou otário, sou mauricinho, porque não vou na deles, mas, prefiro assim. Cada um faz o que acha melhor para si, e o que eu acho melhor para mim é estudar, namorar às vezes, e me preparar para o futuro.
Minha mãe é solteira, trabalha em casa de família como doméstica e sempre chega em casa lá pelas dez horas da noite, pela manhã, quando saio de casa para a escola, ela ainda não saiu para o trabalho, mas, quando sai, deixa meu almoço e minha janta prontos, é só esquentar. Gosto muito dela, temos uma relação muito boa. Nunca soube de meu pai, minha mãe, quando eu pergunto por ele, sempre me diz que ele morreu, e que só vou conhecê-lo quando eu morrer. Fico pensando... como é que vou reconhecê-lo? Nunca o vi! Será que vai saber quem sou? Êpa! Tô ficando doido? Para vê-lo tenho que morrer? Então vamos esperar mais um pouco, ainda estou muito novo e tenho muitos planos para minha vida. Por isso estudo tanto para conseguir alcançá-los.
Como fazia toda a semana, estava indo para a aula pensando como havia sido bom o dia de ontem, domingo. Houve um churrasco na casa de uma amiga de minha mãe, foi aniversário dela e fomos lá, comi muita carne, cheguei a não querer mais comer carne, e olha que eu como muito, minha mãe diz que não sabe para onde vai a comida que eu como, pois é muita e eu não engordo, sempre fui magro. Cheguei até a pensar que nunca mais comeria carne novamente, de tão grande que ficou minha barriga. Foi uma festa muito animada, teve muito pagode e muita carne até tarde da noite, mas minha mãe e eu viemos para casa mais cedo, pois tenho prova hoje e ela tem que trabalhar.
Foi muito estranho o que aconteceu hoje. Estava indo para a escola, quando, de repente, escutei tiros vindo do lado de cima da favela. Já estava acostumado com aquele som, quase todos os dias escutava, parece que moro numa zona de guerra, sujeita a tiroteio todos os dias, e onde as pessoas tem que andar apressadas pela rua, por causa de balas perdidas que, geralmente encontram pessoas que nada tem a haver com o acontecido. É terrível morar num lugar assim, falta paz, tranqüilidade para a gente fazer as coisas, por mais simples que sejam, crianças não podem jogar bola na rua, soltar pipa na laje, jogar bola de gude, simplesmente, criança não pode ser criança. Nunca temos paz, e muitas vezes estamos andando tranquilamente pela rua e temos que correr, nos abrigar em algum lugar, por que vem tiros de qualquer lugar. Na minha casa, quando começam os tiroteios, eu e minha mãe dormimos no pequeno corredor da casa, que é onde nos oferece proteção contra os tiros porque tem mais de uma parede para segurar as balas, várias balas já acertaram a fachada de minha casa, e umas duas já atravessaram a janela. É difícil dormir sossegado, ou até ficar em casa com tranquilidade, pois nunca sabemos quando começa um tiroteio. Quando é contra a polícia, a gente já conhece, pelo foguetório que explode antes da troca de tiros e dá para a gente se abrigar, mas quando é entre os próprios bandidos, somos pegos de surpresa e tem vezes que não dá tempo de se esconder, apenas rezar para Deus nos proteger de uma bala perdida.
Naquela manhã, eu estava indo para a escola quando escutei os tiros, mas foi diferente, os primeiros escutei bem, eram claros e rápidos, tá, tá, tá, mas depois eles fizeram um barulho abafado e senti uma forte dor na cabeça. Senti que estava caindo no chão e ouvi gritos de pessoas. Interessante, depois disso, do som abafado e da dor de cabeça, foi como se tivesse adormecido e estava sonhando, pois eu me via caído ao chão, pessoas gritando e correndo para onde eu estava. Olhei para o meu corpo caído e vi uma mancha de sangue escorrendo de minha cabeça. Fiquei ali, flutuando como uma pipa ao vento, alguma coisa não me tirava dali, nem eu acordava daquele sonho, até que vi minha mãe descendo o morro correndo, se ajoelhou onde eu estava e, chorando, me abraçou, me sacudia, chamava meu nome aos gritos, enquanto que eu inerte em seus braços, não acordava nem atendia aos seus chamados.
Depois me senti flutuando como se fosse um balão de aniversário largado ao vento, e aquela visão foi se afastando, afastando, as coisas ficando difusas, tendo havido um lapso de tempo, que não sei explicar bem como aconteceu, foi como se houvessem apagado uma luz por alguns instantes, para depois uma claridade suave, aos poucos ia tomando forma e dando formas as coisa e as pessoas.
Acordei em um lugar iluminado, cheio de pessoas vestidas de branco, que me confortavam, dizendo palavras agradáveis. Alguns rezavam e riam carinhosamente para mim. Não estava entendendo nada, não sabia onde estava, nem quem eram aquelas pessoas, mas, lá no fundo de meu coração, ainda escutava a prece de minha mãe, entrecortada por lágrimas, e era como se eu a estivesse vendo ali, sentada no chão, com meu corpo inerte em seus braços, minha cabeça sujando a sua blusa branca de sangue. Muitas pessoas estavam ao meu redor, algumas choravam, outras rezavam e eu sentia, em meu interior, ainda deslocado por aquela transição, que as orações vindo de lá de onde estava a minha mãe, me faziam bem, juntavam-se às orações das pessoas que estavam ao meu lado e aquilo me fazia bem, parecia que estava saindo de um pesado sono e me sentia leve, como se flutuasse. Não estava sentindo dor nenhuma, o local era silencioso e onde eu estava, ainda podia sentir e ouvir os soluços de minha mãe inicialmente, como um som fraco que vai tomando corpo, sua voz foi aumentando e a ouvi rezando entre lágrimas, mesmo na dor, ela pedia a Deus que me recebesse com amor.
Uma pessoa se acercou de mim rindo, custei a crê no que estava vendo, era minha avó Carminha que estava ao meu lado. Ela ria, afagava minha cabeça e me pedia que ficasse tranquilo que minha mãe, apesar de tudo também estava tranquila.
Ainda não estava entendendo o que estava se passando, era incompreensível para mim naquele momento. Minha mente estava sobrecarregada de pensamentos, que eu não sabia se eram reais ou se estava apenas sonhando. Uma angústia indefinida tomava conta de minha mente. Por instante me via ainda grudado em meu corpo nos braços de minha mãe, em outros instantes me via deitado em uma cama com minha vó Carminha afagando minha cabeça, pedindo que eu ficasse calmo e que estava tudo bem. Era como se um fenômeno estivesse ocorrendo em minha vida: eu estava em dois lugares ao mesmo tempo, mas, isso era impossível.
Por instantes via luzes cintilantes ao redor de minha avó e olhava para as outras pessoas e também elas estavam iluminadas, uma aura de cor laranja envolvia-as.
Junto com minha avó, estava um homem moreno, alto, de perfil forte, porém ameno, também sorria para mim e aproximando-se pelo outro lado da cama, também afagou os meus cabelos sem deixar de rir carinhosamente, observando-o melhor, comecei a ver nele, alguns traços que se pareciam comigo, fazia força para entender, mas minha mente era uma confusão só. Já não estavam os lamentos e rezas de minha mãe nem das pessoas que estavam em volta de mim em meu sonho. Interessante é que eu escutava as preces das pessoas que se encontravam naquele imenso salão branquíssimo como uma luz que clareava a todos, dando o contraste da aura laranja de alguns e de outros, a aura era prateada, mas suas bocas não se mexiam, apenas riam com amor, mas eu escutava suas preces.
Olhei para minha avó, voltei a cabeça para o homem que estava no lado oposto e voltei novamente a cabeça para ela, que num sorriso encantador, tranqüilizador, amenizador de dores e angústias, me disse: — Este é o seu pai! Agora você pode conhecê-lo.
Fechei os olhos e aos meus ouvidos vieram as palavras de minha mãe: — Seu pai morreu e você só poderá conhecê-lo, quando morrer também.
Abri os olhos, pela minha mente passou os estampidos rápidos e claros, tá, tá, tá, e depois ficaram abafados, e numa sequência vieram as cenas de meu corpo caindo, as pessoas gritando, e minha mãe correndo para o corpo que eu havia deixado caído ao chão.
Olhei para o homem ao meu lado, ele parecia-se comigo, ria e continuava a afagar meus cabelos, e escutei-o dizer quase num sussurro: — Meu filho...
Fechei os olhos novamente e fiz uma prece a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Agora eu sabia que havia desencarnado e que estava no mundo dos espíritos, e, finalmente, conheci meu pai.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
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Comento este conto "Bala Perdida" com um paradoxo: Uma bela história triste.
ResponderExcluirA tristeza está na realidade de quem mora próximo de favelas cariocas, ou dentro delas. A beleza está nas bem escritas linhas de uma narrativa na primeira pessoa, isto é, uma história contada pelo personagem central.
Parabéns Eduardo por esta obra.
Me emocionei muito ao ler este conto. Fui me envolvendo com a narração do personagem. Os detalhes mencionados favorecem a leitura como se fosse um filme. Dá para, mentalmente, criar os rostos dos personagens.
ResponderExcluirAchei interessante que em meio a tanto sofrimento houve a possibilidade de um "final feliz" se assim pode ser dito.
Convivo praticamente todos os dias com esses sons do morro descritos em seu conto e como você menciona tudo isso torna-se "normal" até que conheçamos alguém ou que nos tornemos vítimas de uma "Bala perdida".
Vindo de você, só poderia ter sido muito bom. Parabéns!